Sempre acreditei que a poesia é mais potente do que o discurso direto. Mesmo que nada tivesse acontecido com o torcedor idiota que lançou a banana, o gesto de Daniel Alves já teria sido uma sapatada de fora da área na gaveta. Esse gesto tem tudo a ver com a história do Barcelona, o Camp Nou (campo novo) deveria se chamar campo da resistência, pois foi um dos poucos lugares da Espanha onde se podia falar catalão durante a longa e tenebrosa ditadura do general Franco. No fim do jogo, Neymar, companheiro de clube e parça do Daniel, postou uma foto com seu filho David Lucca. O pai segura uma banana de verdade e o filho uma de pelúcia. A hashtag #somostodosmacacos bombou.
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| Daniel Alves comendo a banana jogada no campo |
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| Foto no Instagram do Neymar |
Otavio Paz, no seu livro "A Dupla Chama", traça uma diferença entre o ato sexual e o ato erótico. O ato sexual é o sexo feito entre um homem e uma mulher com o objetivo da procriação. O ato erótico é o sexo pelo prazer, sem necessidade da reprodução como um fim, podendo ser praticado por um homem e uma mulher, dois homens, duas mulheres, por um coletivo numa suruba de delícias ou até entre espécies diferentes. Assim também se dá com a linguagem que, a princípio, existe com a finalidade de comunicar. Mas a poesia aparece como o erotismo da linguagem, podendo servir a esse fim, mas sendo muito mais o prazer da língua do que seu uso utilitário. Ironicamente é justamente neste campo da erótica do texto que conseguimos transcender a comunicação direta e falar muito mais do que conseguimos num blá, blá, blá como esse daqui.
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Sempre acreditei que a poesia é mais potente do que
o discurso direto. Mesmo que nada tivesse acontecido
com o torcedor idiota que lançou a banana, o gesto de
Daniel Alves já teria sido uma sapatada de fora da área na gaveta.
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O xingamento “macaco”, que envolve o lançamento de bananas, vem de uma ideia ultrapassada. A teoria da evolução segundo Lamarck é diferente da de Darwin. Para Lamarck o homem é descendente do próprio macaco e o africano, negro, uma espécie de elo entre macaco e um europeu super evoluído. Darwin inspirou-se em Lamarck, mas jogou por terra essa ideia e construiu a imagem de um ancestral primata comum que se ramificou em diferentes braços de onde saem os homo sapiens e os diversos macacos que existem por aí. Com isso Darwin nos diferencia no presente, mas nos remete a um ancestral igual. Talvez a hashtag mais correta, darwiniana, fosse #somostodosprimatas. Mas aí a estratégia de incorporar o xingamento, feita mesmo que sem querer por Neymar, não teria efeito: #somostodosmacacos no sentido de que somos todos iguais, somos todos o macaco original do qual viemos, a trilobita primeira, a poeira de estrela inicial. TAMO JUNTO NESSA PORRA PARCEIRO!
Apesar disso somos seres complexos cheios de diferenças marcadas nos olhos, nos cabelos, nas peles. Diferenças que podem se unir, misturar-se, recombinarem-se em infinitas formas e tonalidades numa erótica da vida. Infelizmente ainda não somos todos macacos. Há os que enxerguem essas diferenças como algo que nos deprecia. A esses o meu mais profundo repúdio. Aos que devoram o preconceito com a potência do Eros da poesia minha mais profunda admiração.



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